Da estratégia de conexão à crise: uso de álcool para ser parte do público pode prejudicar saúde e imagem de artistas
Qual o impacto do álcool nas apresentações ao vivo? "Prepara o fígado". Esta frase é bastante comum nos palcos ou no meio do público quando os primeiros acordes de um modão ou de uma sofrência embalam shows sertanejos. Com o encaminhamento da música, copos e garrafas vão virando. E, quando isso acontece em cima do palco, pode trazer fortes impactos que vão desde problemas na voz e na performance dos cantores até crises de imagem e saúde mental destes artistas. O g1 já mostrou
Qual o impacto do álcool nas apresentações ao vivo? "Prepara o fígado". Esta frase é bastante comum nos palcos ou no meio do público quando os primeiros acordes de um modão ou de uma sofrência embalam shows sertanejos. Com o encaminhamento da música, copos e garrafas vão virando. E, quando isso acontece em cima do palco, pode trazer fortes impactos que vão desde problemas na voz e na performance dos cantores até crises de imagem e saúde mental destes artistas. O g1 já mostrou como excesso de álcool nos palcos e bastidores afeta rotina dos artistas. Um aspecto importante deste abuso é: os artistas não buscam a bebida apenas por farra, mas em busca de conexão com o público. "O que vejo hoje é uma geração que força a barra para querer gerar conexão. 'Também gosto de beber, sou como vocês'. Até mesmo a geração de mulheres que veio e que também bebe no palco... No começo era: 'sou como homem, a gente também bebe'. O principal motivo era gerar conexão. Mas aí perde a mão", analisa uma profissional da produção do universo sertanejo que preferiu não se identificar. Mas ela defende que essa tentativa de conexão não é exclusiva do sertanejo. "O lema do rock sempre foi 'sexo, drogas e rock n' roll'. Para músicas de massa, mais populares, é o álcool. Até porque é liberado e mais barato. O reggae e a MPB têm a brisa da maconha. Não dá para generalizar, mas o consumo de drogas, normalmente, está relacionado ao estilo de vida", afirma. O "perder a mão" citado por ela nem sempre significa a dependência ou um escândalo nos palcos. Pode ser, também, uma crise na imagem do artista. "Imagina um contratante que já viu um artista estouradíssimo dando várias declarações de que ele tem problemas com álcool, com bebida, que ele só faz o show se beber ou pedindo desculpas, porque mais uma vez ele não conseguiu fazer a apresentação com a qualidade desejada", questiona a psicóloga Juliana Chiavassa. "A gente não normaliza em outras profissões beber e trabalhar. Me parece que isso é muito mais da música, como se fosse muito livre", aponta ela. Juliana ainda destaca que essa normalidade é reforçada pelas grandes marcas de bebidas alcoólicas patrocinando eventos sertanejos. Perdeu a mão? E agora? Como lidar com crises? Entre dancinhas e "gelas", Nattan fez um show de quase duas horas no Ribeirão Rodeo Music 2026 Érico Andrade/g1 Outro ponto que a psicóloga destaca é que, quando o artista ou sua equipe percebe que o uso da bebida alcoólica está fazendo mal, ele já tem grandes prejuízos. Para o estrategista de imagem pública Luciéllio Guimarães, é um equívoco o artista achar que o público se conecta com ele porque ele está bebendo. "Na maioria das vezes, o público se conecta porque percebe espontaneidade, vulnerabilidade e autenticidade", diz. "O álcool pode até facilitar essa sensação no curto prazo, mas também aumenta o risco de comprometer exatamente aquilo que o artista foi contratado para entregar: a performance." "A conexão mais sustentável nasce da autenticidade, da presença de palco e da capacidade de leitura da plateia. Quando o artista passa a associar performance ao consumo de álcool, cria um risco duplo: para a saúde e para a própria marca pessoal." Mas se o artista não percebeu isso em tempo, o que deve ser feito? "O primeiro passo é entender que a crise raramente nasce da bebida em si. Ela surge quando há uma quebra de expectativa do público. O fã compra um ingresso esperando determinada entrega artística e, quando percebe perda de performance, falhas vocais, esquecimentos ou comportamentos inadequados, sente que o acordo implícito foi rompido", destaca Luciéllio Guimarães, estrategista de imagem pública. Para fazer a gestão de imagem a partir deste momento, Luciéllio cita que o trabalho não é esconder o problema e, sim, restaurar a confiança do público no artista. "Isso passa por reconhecer o ocorrido quando necessário, demonstrar responsabilidade e apresentar mudanças concretas de comportamento. O público costuma perdoar falhas humanas, mas reage mal à repetição do erro ou à negação da realidade." Nattan, Murilo Huff, Zé Neto e mais relatos Murilo Huff empolga e encanta público na 1ª noite de show da Festa Junina de Votorantim (SP) Marcel Scinocca/g1 A discussão sobre o impacto do consumo de álcool na rotina de apresentações voltou à tona após a autocrítica feita por Nattan após um show em Maracanaú, no Ceará. O cantor admitiu que o entusiasmo e a bebida consumida ainda no camarim comprometeram sua performance, a ponto de repetir ao menos uma das músicas diversas vezes durante o show. Ele não citou se vai abandonar o consumo de álcool, mas prometeu entregar para o público uma "nova apresentação com o padrão de qualidade que seu público conhece" em uma outra data. A nova apresentação foi realizada neste sábado (6). 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Semanas antes, Murilo Huff havia contado em um
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