Insulina, sensores e correções durante o jogo: como Zverev administrou a diabetes até o título de Roland Garros
Insulina, sensores e correções no jogo: como Zverev administrou a diabetes até o título Três anos atrás, naquele mesmo saibro de Paris, um fiscal disse a Alexander Zverev que aplicar insulina em quadra soava estranho. O tenista alemão, que convive com diabetes tipo 1 desde a infância, respondeu que, sem aquela dose, sua vida estaria em risco. No domingo (7), Zverev voltou à quadra Philippe-Chatrier, venceu o italiano Flavio Cobolli em cinco sets e conquistou o primeiro título
Insulina, sensores e correções no jogo: como Zverev administrou a diabetes até o título Três anos atrás, naquele mesmo saibro de Paris, um fiscal disse a Alexander Zverev que aplicar insulina em quadra soava estranho. O tenista alemão, que convive com diabetes tipo 1 desde a infância, respondeu que, sem aquela dose, sua vida estaria em risco. No domingo (7), Zverev voltou à quadra Philippe-Chatrier, venceu o italiano Flavio Cobolli em cinco sets e conquistou o primeiro título de Grand Slam de uma carreira de 13 anos. O gesto que um dia pareceu suspeito ajuda, agora, a explicar a vitória. O diagnóstico veio cedo. Ele tinha quatro anos quando o pâncreas deixou de produzir insulina —o hormônio que leva o açúcar para dentro das células— e a família ouviu de médicos que o menino dificilmente seria um atleta de elite. Por anos, Zverev escondeu a condição, com receio de ser barrado nas competições de base. Só em 2022 decidiu falar abertamente e fundou, em Hamburgo, uma instituição que ajuda crianças com diabetes tipo 1 e fornece insulina em países de baixa renda. Alexander Zverev, campeão de Rolland Garros Reprodução/Instagram Uma maratona metabólica Para medir o tamanho do feito, é preciso olhar o que acontece dentro do corpo ao longo das horas de jogo. Uma partida de tênis pode passar de quatro horas, e o esforço exige um equilíbrio que, em quem tem diabetes tipo 1, não se faz sozinho: sem a insulina que o pâncreas deixou de produzir, cada oscilação do açúcar no sangue depende de doses calculadas de fora. O endocrinologista Thiago Artioli, responsável pelo Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, descreve um percurso de três tempos. No início do exercício, os músculos passam a capturar glicose do sangue por uma via que dispensa a insulina, e a glicemia pode despencar mesmo que o atleta tenha se medicado pouco antes. À medida que a partida avança, o esforço e a tensão emocional disparam hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina, que estimulam o fígado a liberar açúcar no sangue —uma hiperglicemia passageira, logo corrigida com novas doses. No fim, e nas horas seguintes, o glicogênio, reserva de açúcar do fígado, se esgota, e o risco se inverte mais uma vez: pode sobrevir uma hipoglicemia tardia, de 6 a 24 horas após o pico de esforço, às vezes durante o sono. A esse vaivém somam-se a desidratação e a reposição constante de carboidrato. Quanto mais longa a partida, mais glicose o corpo consome e mais sensível à insulina ele se torna —de modo que a dose certa para o início pode ser demais para o fim, e o ajuste passa a se medir em frações de unidade, em que um pequeno erro de cálculo já altera o rendimento. Nos extremos, dois perigos. A hipoglicemia, a queda do açúcar abaixo de 70 miligramas por decilitro, costuma se anunciar com tremor, suor intenso, confusão mental e batimentos acelerados, e exige a ingestão imediata de carboidrato. No sentido oposto, a hiperglicemia traz náusea, fadiga acentuada e cetonas que já aparecem em exames de sangue ou urina; somada à desidratação, pode evoluir para uma cetoacidose: sem insulina suficiente, o organismo passa a queimar gordura como combustível, e o acúmulo dessas cetonas ácidas no sangue se torna uma emergência que pode ser fatal. Manter a glicose na faixa certa, portanto, é mais do que uma questão de segurança. Um nível estável preserva a concentração, a coordenação e a clareza para decidir —os mesmos atributos que separam um ponto ganho de um perdido. Entre um abismo e outro, resume o médico, Zverev não é uma exceção da natureza, e sim o retrato do que disciplina, tecnologia e cuidado médico tornaram possível. O sensor que antecipa a queda O tenista Alexander Zverev Reprodução/Instagram Se, há algumas décadas, controlar essas oscilações durante uma competição de alto rendimento era impossível, hoje a tecnologia tornou a tarefa mais previsível. No centro dessa mudança está o monitoramento contínuo da glicose: um sensor adesivo preso ao braço, com um filamento finíssimo posicionado logo abaixo da pele. Em vez de medir o açúcar no sangue, ele lê a glicose no líquido intersticial —o fluido que banha as células— de minuto a minuto, dia e noite. A leitura substitui a picada no dedo e chega em tempo real a um aplicativo, que pode ser compartilhado com o médico e com a equipe do atleta; cada sensor funciona por cerca de 14 dias antes de ser substituído. Como afere o fluido entre as células, e não o sangue, o número traz um pequeno atraso em relação à glicemia real —diferença que aumenta quando o açúcar sobe ou cai depressa, como acontece em quadra. Para o endocrinologista Clayton Macedo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e médico do Hospital Israelita Albert Einstein, o maior trunfo do aparelho não é o valor que ele exibe, e sim a seta de tendência: antes mesmo de a glicose cair, o sensor mostra para o
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