Álbum que uniu Clara Nunes a Paulo César Pinheiro, 'Canto das três raças' faz 50 anos como trilha do Brasil mestiço
Capa do álbum 'Canto das três raças' (1976), de Clara Nunes Reprodução ♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976 ♬ Analisado em perspectiva na discografia de Clara Nunes, 50 anos após o lançamento, o álbum “Canto das três raças” se impõe como divisor de águas na trajetória fonográfica da cantora mineira. Àquela altura, em 1976, a mineira Clara Francisca Gonçalves (12 de agosto de 1942 – 2 de abril de 1983) já estava convertida ao samba há cinco anos e já havia se imposto como um dos maiores
Capa do álbum 'Canto das três raças' (1976), de Clara Nunes Reprodução ♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976 ♬ Analisado em perspectiva na discografia de Clara Nunes, 50 anos após o lançamento, o álbum “Canto das três raças” se impõe como divisor de águas na trajetória fonográfica da cantora mineira. Àquela altura, em 1976, a mineira Clara Francisca Gonçalves (12 de agosto de 1942 – 2 de abril de 1983) já estava convertida ao samba há cinco anos e já havia se imposto como um dos maiores nomes do gênero e uma das maiores cantoras da música brasileira pela voz luminosa, de emissão clara. Contudo, o álbum gravado entre julho e agosto de 1976 – e editado em LP de capa dupla pela gravadora EMI-Odeon com luxuosa arte gráfica – expandiu o canto de Clara. A artista queria ser percebida como uma cantora de música brasileira, sem o rótulo de sambista, ainda que sempre tivesse o samba como norte e base do repertório. Para que Clara atingisse o objetivo, foi fundamental a união da artista com o compositor e produtor musical Paulo César Pinheiro. “Canto das três raças” é o álbum que marca o início da parceria da cantora com Pinheiro, com quem Clara se casou em julho de 1975 após iniciar relacionamento em 1974. Descontada a fase irregular e inexpressiva da década de 1960, a discografia de Clara Nunes pode ser dividida entre os álbuns produzidos por Adelzon Alves e os discos feitos com Paulo César Pinheiro. Arquiteto da imagem de sambista adotada por Clara a partir de 1971, com direito a um figurino estilizado de baiana, Adelzon deu forma aos álbuns lançados pela cantora em 1971, 1972, 1973 e 1974. Foram quatro discos de consolidação da imagem e da voz da cantora no universo do samba. Desfeita a conexão com Adelzon, Clara Nunes lançou álbum de transição em 1975, “Claridade”, arranjado e produzido pelo violonista Hélio Delmiro (1947 – 2025) – nome indicado pelo próprio Paulo César Pinheiro e creditado como produtor executivo na ficha técnica original do LP – em parceria com Renato Correa, este creditado como diretor de produção. Foi somente em “Canto das três raças” que Pinheiro assumiu a direção artística da discografia da cantora em vínculo que durou até a morte precoce de Clara, aos 40 anos, em abril de 1983, vítima de complicações decorrentes de operação de varizes. Neste álbum, o décimo da artista, Clara Nunes gravou dez músicas formatadas em estúdio sob direção musical de Lindolpho Gaya (1921 – 1987), maestro também responsável pelos arranjos e regências do disco, função que dividiu com Orlando Silveira (1925 – 1993), Francis Hime – que orquestrou a regravação de “Basta um dia” (Chico Buarque), música da trilha sonora da peça “Gota d'água” (1975) – e Nelson Martins dos Santos (1927 – 1996), o maestro conhecido no meio artístico como Nelsinho. Como em todos os discos lançados por Clara Nunes a partir de 1971, o repertório do álbum “Canto das três raças” é irretocável. A começar pelo memorável samba que deu nome ao disco, uma das músicas mais conhecidas e revisitadas do repertório de Clara. Trata-se do segundo grande sucesso da parceria de Paulo César Pinheiro com o compositor Mauro Duarte (1930 – 1989), projetada dois anos antes com a gravação, pela mesma Clara Nunes, do lírico samba “Menino Deus”, um dos sucessos do álbum “Alvorecer” (1974). Além de assinar com Pinheiro a música-título do álbum “Canto das três raças”, faixa que sintetizou as intenções da cantora e do produtor de fazer do canto de Clara uma tradução da amplitude musical do Brasil mestiço, Mauro Duarte – mineiro que se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) na infância – é o único compositor do segundo hit radiofônico do disco, “Lama”. “Lama” é samba que Duarte ofereceu a Ataulfo Alves (1909 – 1969) – por ironia o autor do primeiro samba gravado por Clara com sucesso, “Você passa eu acho graça” (1968) – e que Ataulfo recusou por temer que todo mundo pensasse que o samba de tom moralista era dele, Ataulfo, e não do então iniciante Mauro Duarte. “Lama” é a segunda faixa do disco, que segue com um baião de sotaque interiorano, “Alvoroço no sertão” (Aldair Soares e Raimundo Evangelista, 1954), ouvido por Clara na infância vivida no interior de Minas Gerais, como conta Paulo César Pinheiro nas notas que escreveu para cada uma das dez músicas do álbum. Acordeonista e maestro paulista, recorrente nas fichas técnicas dos álbuns de Clara orquestrados pelo maestro Gaya, Orlando Silveira fez o arranjo de base de “Alvoroço no sertão” com músicos que tocavam com Jackson do Pandeiro (1919 – 1982). Compositor de “Juízo final” (1973), um dos grandes sucessos do álbum “Claridade” (1975), Nelson Cavaquinho aparece duplamente no repertório de “Canto das três raças”. Dele, Clara deu voz a um então inédito samba de resignação esperançosa – “Tenha paciência”, parceria de Nelson com Guilherme de Brito (1922 – 2006) – e a uma também inédita marcha-rancho, “Risos e lágrimas”, parceria do bamba c
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