Por que crianças não podem subir em árvores nos parques de SP? Caso no Villa-Lobos reacende debate sobre regras que proíbem a prática
Trilhas para conhecer as árvores dos parques e as espécies ameaçadas também fazem parte do roteiro Daniel Tavares/PCR/Divulgação Um menino de 7 anos correu pela grama do Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, e subiu em uma pequena árvore próxima aos pais. O pai dele, o botânico e paisagista Ricardo Cardim, estava sentado no gramado quando ouviu o barulho de uma moto se aproximando. Segundo ele, um segurança do parque parou ao lado da família e informou que uma crian
Trilhas para conhecer as árvores dos parques e as espécies ameaçadas também fazem parte do roteiro Daniel Tavares/PCR/Divulgação Um menino de 7 anos correu pela grama do Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, e subiu em uma pequena árvore próxima aos pais. O pai dele, o botânico e paisagista Ricardo Cardim, estava sentado no gramado quando ouviu o barulho de uma moto se aproximando. Segundo ele, um segurança do parque parou ao lado da família e informou que uma criança havia sido vista subindo na árvore e que aquilo não era permitido pelas regras do local. O caso ocorreu na última sexta-feira (5). Cardim afirma que o filho ficou assustado e constrangido com a abordagem. Na sequência, o botânico gravou um vídeo relatando o episódio e questionando a proibição. Publicado nas redes sociais, o relato viralizou e reacendeu um debate antigo em São Paulo: até que ponto regras criadas para proteger árvores e usuários podem limitar o brincar livre e o contato das crianças com a natureza? A discussão ganhou força porque a orientação dada pelo segurança não foi uma decisão isolada. Regulamentos de parques municipais e estaduais de São Paulo proíbem que visitantes subam em árvores. A restrição existe há pelo menos duas décadas e costuma ser justificada por razões de segurança e preservação ambiental (leia mais abaixo). Histórias lindas marcam os 70 anos do Parque do Ibirapuera No Parque Villa-Lobos, administrado pela concessionária Reserva Paulista desde 2022, o regulamento proíbe expressamente subir, escrever ou amarrar objetos nas árvores. Procurada pelo g1, a concessionária afirmou que lamenta o desconforto causado à família e disse que a orientação dada pelo agente de segurança seguiu as normas vigentes de uso do parque. Segundo a empresa, a restrição faz parte do Regulamento de Operacionalização e Uso elaborado em 2019, antes do processo de concessão, e tem como objetivo prevenir acidentes e contribuir para a preservação das espécies vegetais existentes no local. A concessionária afirmou ainda estar aberta a ouvir a sociedade para discutir "novas alternativas de interação com a natureza para as crianças", desde que respeitados critérios de segurança (leia mais abaixo). Em nota, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) informou que "valoriza o uso dos parques por crianças e que as regras não visam restringir o contato com a natureza, mas proteger as árvores (leia mais abaixo). Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam, porém, que experiências como subir em árvores ajudam no desenvolvimento motor, emocional e cognitivo das crianças e questionam o que consideram um excesso de controle sobre a infância nos espaços públicos. Em São Paulo, se uma criança não puder subir numa árvore dentro de um parque, ela vai subir onde? Na escola? Em casa? Na rua? Os parques precisam ter consciência da responsabilidade que têm de proporcionar esse tipo de experiência Segundo ela, os parques têm um papel importante em uma cidade como São Paulo, onde oportunidades de contato espontâneo com a natureza se tornaram cada vez mais raras. "Se uma criança não puder subir numa árvore dentro de um parque, talvez ela não suba em lugar nenhum." O botânico Ricardo Cardim gravou um vídeo relatando o episódio e questionando a proibição de uma criança subir em uma árvore. Reprodução A especialista afirma ainda que episódios como o ocorrido no Villa-Lobos refletem uma tendência mais ampla observada nas grandes cidades: a redução da autonomia infantil e das oportunidades de brincar ao ar livre. O livro "Parques Naturalizados", organizado pela própria pesquisadora e publicado em 2022, aponta que chamado "raio de ação" das crianças vem diminuindo ao longo das gerações, o que reduz experiências de exploração, descoberta e contato com a natureza. O conceito trata da distância que as crianças podem percorrer sozinhas pelo bairro para ir à escola, visitar amigos ou frequentar equipamentos públicos. "Um parque precisa se perguntar o que está fazendo para proporcionar experiências que as crianças não encontram mais tão facilmente no dia a dia. Subir em árvores, correr, construir uma cabana eram atividades muito espontâneas há 30 ou 40 anos e hoje estão quase em extinção", afirma Isabel. "As áreas verdes têm um papel importante para enfrentar esse cenário que chamamos de déficit de natureza ou emparedamento das crianças." Desenvolvimento Para Isabel Barros, que coordena projetos relacionados à educação baseada na natureza e saúde, subir em árvores estimula habilidades motoras, criatividade, autoconfiança e percepção de risco. "Uma criança que cresce sem essas experiências vai crescendo com um repertório mais empobrecido de manejo de risco. E isso tem impacto em toda a vida dela", afirma. Segundo ela, situações perigosas são aquelas que podem levar a consequências graves, como deixar uma criança que não sabe nadar brincar sozinha perto de um ri
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